A consolidação da Universidade Federal da Bahia como instituição pública de excelência exige o enfrentamento direto de um de seus desafios mais estruturais: a garantia de uma infraestrutura universitária adequada, funcional e sustentável, capaz de assegurar condições dignas de trabalho, estudo, pesquisa, extensão, cultura e assistência à saúde. Infraestrutura não é um tema acessório, nem pode ser tratada apenas como questão administrativa: ela é condição material da missão acadêmica e da função social da Universidade.
Nos últimos anos, a UFBA conviveu com os efeitos acumulados de cortes orçamentários severos, que comprometeram a manutenção predial, a atualização de equipamentos, a conclusão de obras estratégicas e a expansão planejada da instituição. Esse quadro impactou diretamente o cotidiano da comunidade universitária, gerando precarização de ambientes de ensino e trabalho, riscos à segurança, limitações ao desenvolvimento científico e dificuldades para o pleno funcionamento de unidades acadêmicas, administrativas e hospitais universitários.
A retomada do investimento público, iniciada a partir de 2023, abre uma janela de oportunidade para reorganizar, concluir e planejar de forma estruturante a infraestrutura da UFBA. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Universidades representa um passo importante nesse sentido, ao viabilizar recursos para a retomada de obras paralisadas e para intervenções estratégicas. Contudo, o desafio da infraestrutura universitária não se esgota na execução de investimentos pontuais: ele exige planejamento integrado de médio e longo prazos, capacidade técnica institucional fortalecida e uma visão estratégica articulada ao projeto acadêmico.
1. Infraestrutura como política institucional integrada
Defendemos que a infraestrutura deve ser tratada como política institucional transversal, articulada às políticas de graduação, pós-graduação, pesquisa, extensão, assistência estudantil, cultura, inovação e saúde. Isso implica superar a lógica fragmentada de intervenções emergenciais e avançar para um planejamento físico e territorial da Universidade, que considere:
- A conclusão e a adequada ocupação das obras inacabadas;
- A recuperação, conservação e adaptação de prédios históricos e contemporâneos;
- A adequação de salas de aula, laboratórios, bibliotecas, espaços culturais e administrativos às necessidades pedagógicas e tecnológicas atuais;
- A garantia de acessibilidade plena para pessoas com deficiência;
- A melhoria das condições de trabalho e de segurança nos ambientes universitários.
Esse planejamento deve estar integrado ao Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) e dialogar com a expansão responsável da Universidade, evitando improvisações e garantindo racionalidade no uso dos recursos públicos.
2. Hospitais universitários e infraestrutura da saúde
A infraestrutura da UFBA inclui, de forma indissociável, seus hospitais universitários, que cumprem dupla função estratégica: a formação de profissionais de saúde e a prestação de serviços essenciais ao Sistema Único de Saúde (SUS). A melhoria das condições físicas, tecnológicas e operacionais desses equipamentos é fundamental para assegurar qualidade assistencial, ensino de excelência e condições dignas de trabalho aos profissionais da saúde, incluindo os trabalhadores vinculados à EBSERH.
Da mesma forma, a expansão territorial da UFBA, como no campus de Vitória da Conquista, impõe o desafio de lutar pela implantação de novos equipamentos estruturantes, a exemplo de um hospital universitário regional, fundamental para a consolidação acadêmica e para o atendimento à população do sudoeste baiano.
3. Sustentabilidade como eixo estruturante, não retórico
A sustentabilidade, neste projeto, não é tratada como adjetivo genérico ou discurso de ocasião. Ela se insere em um projeto de universidade comprometida com a transição socioecológica, com a racionalidade no uso de recursos públicos e com a responsabilidade intergeracional. Isso implica incorporar princípios de sustentabilidade ambiental, econômica e social ao planejamento e à gestão da infraestrutura universitária.
Entre os eixos estratégicos dessa política, destacam-se:
- Eficiência energética e hídrica nos prédios universitários, com redução de desperdícios e custos operacionais;
- Planejamento de obras e reformas que incorporem soluções ambientalmente responsáveis, respeitando as características históricas e arquitetônicas do patrimônio da UFBA;
- Gestão responsável de resíduos, incluindo resíduos laboratoriais, hospitalares e administrativos;
- Integração entre infraestrutura, pesquisa e extensão, utilizando o próprio campus universitário como espaço de experimentação, formação e produção de conhecimento sobre sustentabilidade.
Essa abordagem permite que a UFBA seja, simultaneamente, objeto e sujeito da transição socioecológica, articulando prática institucional, formação acadêmica e produção científica.
4. Capacidade institucional e valorização do trabalho técnico
Uma política robusta de infraestrutura e sustentabilidade exige o fortalecimento da capacidade técnica interna da Universidade. A UFBA dispõe de quadros altamente qualificados nas áreas de engenharia, arquitetura, urbanismo, planejamento, meio ambiente e gestão, cujo potencial muitas vezes é subaproveitado. Valorizar esses profissionais, garantir condições adequadas de trabalho e integrar seus saberes aos processos decisórios é fundamental para elevar a qualidade dos projetos e a eficiência da execução.
Além disso, é imprescindível aprimorar os fluxos administrativos relacionados a obras, contratos e manutenção, garantindo transparência, previsibilidade e respeito às normas legais, sem paralisar a Universidade por excessiva burocratização.
5. Infraestrutura, sustentabilidade e o direito de permanecer
Por fim, afirmamos que infraestrutura e sustentabilidade estão diretamente relacionadas às políticas de permanência estudantil e ao direito à aprendizagem. Salas adequadas, bibliotecas funcionais, laboratórios equipados, restaurantes universitários em condições dignas, residências estudantis seguras e ambientes acolhedores são elementos centrais para o sucesso acadêmico e para o pertencimento à vida universitária.
Investir em infraestrutura é, portanto, investir na permanência, na inclusão e na qualidade da formação, especialmente em uma universidade que se democratizou e ampliou significativamente seu público ao longo das últimas décadas.